A questão é: Por que o título desse artigo do meu blog é "Netflix, Trump e o "Capitalismo racial""? A resposta é simples e eu vou discorrer sobre isso em breves parágrafos. Porém, posso adiantar que as três coisas estão totalmente interligadas e nos ajudam a entender os movimentos de ódio ao "outro" nos EUA, no Brasil e no mundo.
Nossa economia capitalista moderna nasceu devido a dois grandes fatores: terras indígenas roubadas e pessoas africanas roubadas. Esses fatos exigiram na época teorias intelectuais que classificavam o valor relativo da vida e do trabalho humano, sempre colocando o homem branco no topo da sociedade. No Brasil essa questão não foi diferente, pois intelectuais como Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda e Raimundo Faoro só trocaram a palavra "racismo" por "culturalismo", justificando sempre o brasileiro como um povo inferior ao resto do mundo, mas isso é assunto para outro post.
O termo "Capitalismo racial" surgiu de um teórico político chamado Cedric Robinson que, segundo ele, disse: "A capacidade de descartar as pessoas de pele mais escura e as nações mais escuras a fim de justificar a apropriação de suas terras e de sua força de trabalho foi fundamental, e nada disso teria sido possível sem as teorias de supremacia racial. O algodão e o açúcar colhidos pelos escravos africanos foram os combustíveis que impulsionaram a Revolução Industrial".
Resumindo tudo isso, a economia em qualquer lugar do mundo nunca pôde ser dissociada da política de identidade de "raça". Isso tantos no começo do capitalismo como hoje nos seus modos mais predatórios possíveis.
Entender isso, é entender que todas as vezes que os diferentes grupos étnicos obtiveram algum tipo de ganho ou de poder que tornou suficiente para ameaçar o mundo corporativo, principalmente dos anos de 1980 até os dias atuais, os trabalhadores brancos foram convencidos por políticos e por grandes corporações de que seus verdadeiros inimigos eram as pessoas de pele escura que estavam roubando o seu emprego ou praticando violência. Podemos citar vários casos no mundo todo: Nos EUA as últimas eleições foram baseadas totalmente na disputa entre Brancos x Latinos/Pretos; nas últimas eleições do Brasil as disputas foram baseadas em Classe média que teve uma ascensão e se identifica mais com os bilionários do que com o seu passado humilde, não aceitando que pessoas mais pobres ocupassem o mesmo espaço que elas X Pobres e Pretos que obtiveram uma leve ascensão social; Na França a disputa foi entre um discurso de ódio da extrema direita representada por Marine Le Pen (filha de Jean Le Pen, político que negou o holocausto) X Macron.
Assim que entendemos como funciona o "Capitalismo racial", podemos entrar no caso retratado na série da Netflix e o atual Presidente dos EUA, Donald Trump e podemos comprovar através de um caso de ódio e atitudes tomadas pelo na época empresário Trump, como nós chegamos nesse capitalismo e nessa democracia do desastre.
Quando o crime ocorreu, Donald Trump, na época um empresário que já havia falido diversas empresas, pagou anúncios de página inteira nos mais importantes jornais diários dos EUA no qual clamava pela volta da pena de morte. O que se viu posterior a isso foi uma população com ódio crescente de pretos e latinos. Mais tarde, quando os cinco jovens foram inocentados através de diversos testes de DNA feito pelo governo americano e suas sentenças foram anuladas, Donald Trump se recusou a se desculpar ou a se retratar de suas ações.
Isso explica o governo Trump atual que, através do seu Departamento de Justiça, alegue que os serviços sociais, a contribuição da população civil e os órgãos competentes ligados à questão migratória estão desmoronando as cidades de Chicago e Nova York devido aos imigrantes, que são responsabilizados por todos os crimes cometidos.
É óbvio que discursos como esses tendem a desviar os focos dos anos de negligência neoliberal, criando "guerras contra o crime", "guerras contra às drogas" e arrumar um inimigo para a falha de um sistema que já nasceu falido.
Qualquer semelhança entre os discursos de ódio da classe média ascendente e a classe alta brasileira com os grandes corporativistas dos EUA posso garantir que não é mera coincidência.
Para entender melhor como os imigrantes e pretos nos EUA (também em outras partes do mundo) são tratados, assistam a série "Olhos que condenam".
Fonte: Cedric Robinson - Black Movements in America
The New York Times - textos de 1989 retirados do site
Naomi Klein - A doutrina do Choque
Naomi Klein - Isso muda tudo
Netflix - Olhos que condenam
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