terça-feira, 26 de março de 2019

A falta de decoro presidencial


No último dia 25 de março o então presidente eleito do Brasil, Jair Bolsonaro, mandou que fosse celebrado no próximo dia 31 de março comemorações favoráveis ao Golpe Militar de 1964, alegando “Não considerar 31 de março de 1964 como um golpe” e “não considerar o período como uma ditadura”. Porém, quais são as consequências dessa declaração do principal chefe do Executivo do Brasil?
Primeiramente, a opinião pessoal de Jair Bolsonaro não deve refletir na opinião do Presidente da República. A ditadura militar é um fato comprovado por estudos, pela história e pela Comissão Nacional da Verdade que, quando analisado, tornam-se os números assustadores.
No Brasil, a radiografia dos atingidos pela repressão política ainda está longe de ser concluída, mas conforme levantamento da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos da SEDH-PR sabe-se que pelo menos 50 mil pessoas foram presas somente nos primeiros meses da ditadura militar e cerca de 20 mil brasileiros passaram por sessões de tortura. Além disso, existem 7.367 acusados e 10.034 atingidos na fase de inquérito em 707 processos judiciais por crime contra a segurança nacional; sem falar nas milhares de prisões políticas não registradas, nas quatro condenações à pena de morte, nos aproximadamente 130 banidos, nos 4.862 cassados, nas levas de exilados e nas centenas de camponeses assassinados.
Ainda conforme levantamento feito pela Comissão Nacional da Verdade, 191 brasileiros que resistiram à ditadura foram mortos, 210 estão até hoje desaparecidos e foram localizados apenas 33 corpos, totalizando 434 militantes mortos e desaparecidos. E os agentes dos órgãos de repressão do Estado que foram até agora identificados, responsáveis pelas torturas e assassinatos, totalizam 337.
Dessa forma, com esses números comprovados, a primeira consequência é que o Presidente da República, se posicionando a partir de seu cargo, favorável a um período antidemocrático e com as características citadas acima, está cometendo um crime de Lesa-pátria. É importante frisar que o crime de Lesa-pátria é um crime independente do partido político ou do segmento ideológico das pessoas, pois é uma lei assinada pelo presidente João Figueiredo em 1983 e que está na constituição e nos códigos penais, sendo passíveis de punição.
Mas o que é crime de Lesa-pátria e porque é um crime tão grave assim? O crime de Lesa-pátria é uma lei que prevê os crimes que lesam ou expõem a perigo de lesão o “regime representativo e democrático, a Federação e o Estado de Direito” (Artigo 1º, inciso II). Esse crime se agrava ainda mais quando é “praticado o crime com o auxílio de qualquer espécie, de governo, organização internacional ou grupos estrangeiros” (Artigo 4º. Inciso II a).
Analisando o artigo primeiro, inciso dois sobre o crime de Lesa-pátria, vemos que a ditadura militar extinguiu em 9 de abril de 1964 o regime representativo através do Ato Institucional número 1, estabelecendo eleições indiretas para Presidente da República e podendo cassar os mandatos dos representantes do Legislativo que foram eleitos pelo povo, retomando essa forma de política somente em 1989. Dessa forma, o atual presidente Jair Bolsonaro, exaltando a Ditadura Militar e fazendo comemorações, já comete o crime de defender a falta de representatividade popular.
A segunda parte do inciso dois fala sobre a lesão ao regime democrático. Durante a Ditadura Militar no Brasil várias manifestações políticas foram repreendidas com apreensões, torturas dos atores políticos que pensavam diferente dos donos do poder, gerando esse alto número de mortos e desaparecidos citados acima. Diferentemente do que a maioria da população pensa, a democracia não é só o direito a votos, mas é o direito de se expressar e de ter os seus direitos de protesto, oposição e liberdade de expressão garantidos. Mesmo que o seu representante não seja eleito, quem está no poder tem que governar para toda uma nação e não somente para quem o elegeu. Se no Regime Militar de 21 anos existentes no Brasil esses direitos não foram garantidos e temos um Presidente da República que exalta esse tipo de política, claramente comete um crime grave contra a sua pátria.
Em relação a lesão à Federação e ao Estado democrático de direito, poderíamos discorrer um livro sobre as atrocidades que atacaram o “direito de propriedade” e o “Princípio da dignidade humana” (Montesquieu), sendo que tivemos várias influências dos Estados Unidos da América no Regime Militar brasileiro.
O artigo quarto é o mais grave criminalmente para o Presidente da República, pois quando ele se utiliza do seu cargo governamental para exaltar o período ditatorial de um país, ele está agravando o crime. A pena para esse tipo de crime está prevista no Artigo 22 (Fazer, em público, propaganda), com um a quatro anos de prisão, podendo aumentar a pena em caso de propaganda feita em local de trabalho ou por meio de rádio ou televisão; incitar a subversão da ordem política e social (As declarações do presidente causam esse tipo de subversão da ordem de quem o defende contra quem é contra as suas ideias, principalmente em redes sociais);
Tal declaração e manifestação de um presidente da República é uma afronta gravíssima à democracia, que se analisada na Lei do Impeachment - Lei 1079/50, poderia ter consequências ruins para o governante e para o país, sofrendo um desgaste político e mais um processo de Impeachment. Não é o que o Brasil necessita agora. O que o Brasil precisa é de uma presidência que saiba fazer articulações políticas e fazer esforços para a despolarização política social, conseguir fazer políticas inclusivas e econômicas que reestruturem o país. É necessário gerar a despolarização causada desde 2014 pelos atuais donos do poder que não aceitaram a derrota eleitoral.
Aos opositores, resta fazer uma oposição inteligente e sem extremismos, trazendo novos eleitores e mostrando que estão corretos nos seus pontos de vistas e argumentos. O que se vê da oposição até agora é o mesmo que se vê de quem está no poder: Ataque e mais ataques, sem demonstrar argumentos lógicos e debates relevantes acerca dos problemas atuais do Brasil. É claro que nem toda oposição faz esse tipo de política mas, infelizmente, é a que se sobressai.


Fontes: http://www4.pucsp.br/comissaodaverdade/mortos-e-desaparecidos-contextualizacao.html
             https://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2019/03/25/presidente-bolsonaro-manda-quarteis-celebrarem-o-31-de-marco.ghtml
             http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l7170.htm
             https://presrepublica.jusbrasil.com.br/legislacao/128811/lei-do-impeachment-lei-1079-50

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