*Artigo originalmente publicado na revista "Research and Studies Center" pelo site https://bras-center.com/is-there-a-movement-towards-authoritarism-in-the-world/
Este artigo parte de duas premissas: A primeira é mostrar que as democracias se enfraquecem não mais através de instituições autoritárias, mas sim de pessoas que estão dentro do jogo democrático e se favorecem de instituições e leis flexíveis para levar o país a um regime autoritário; a segunda é que, casos como o da Hungria, pode nos fazer aprender para que tenhamos democracias mais fortes. Para medir o nível da democracia, será utilizado o modelo teórico de Juan Linz, em seu livro intitulado “The Breakdown of Democratic Regimes”, publicado em 1978. Neste livro, o autor salienta que o papel dos líderes políticos pode reforçar uma democracia ou enfraquecê-las. Com as premissas de Linz (1978), os autores Levitsky e Ziblatt (2018) fizeram a tabela abaixo. Outro referencial teórico será o livro “How democracies die”, de Steven Levitsky & Daniel Ziblatt (2018).
|
1 – Rejeição das regras democráticas do jogo (ou compromisso débil
com elas) |
Os candidatos rejeitam a Constituição ou expressam
disposição em violá-las? |
|
2 – Negação da legitimidade dos oponentes políticos |
Descrevem seus rivais como subversivos ou opostos à ordem
constitucional existente? Afirmam que seus rivais constituem uma ameaça, seja à
segurança nacional ou ao modo de vida predominante? Sem fundamentação, descrevem seus rivais partidários como
criminosos cuja suposta violação da lei (ou potencial de fazê-lo)
desqualificaria sua participação plena na arena política? Sem fundamentação, sugerem que seus rivais sejam agentes
estrangeiros, pois estariam trabalhando secretamente em aliança com (ou
usando) um governo estrangeiro – com frequência um governo inimigo? |
|
3 – Tolerância ou encorajamento à violência |
Tem quaisquer laços com gangues armadas, forças
paramilitares, milícias, guerrilhas ou outras organizações envolvidas em
violência ilícita? Patrocinam ou estimulam eles próprios os seus partidários
ataques de multidões contra oponentes? Endossaram tacitamente a violência de seus apoiadores,
recusando-se a condená-los e puni-los de maneira categórica? Elogiaram (ou se recusaram a condenar) outros atos
significativos de violência política no passado ou em outros lugares no
mundo? |
|
4 – Propensão a restringir liberdades civis de oponentes, inclusive a
mídia |
Apoiaram leis ou políticas que restrinjam a liberdades
civis, como expansão de leis de calúnia e difamação ou leis que restrinjam
protestos e críticas ao governo ou certas organizações civis ou políticas? Ameaçaram tomar medidas legais ou outras ações punitivas
contra seus críticos em partidos rivais, na sociedade civil ou na mídia? Elogiaram medidas repressivas tomadas por outros governos,
tanto no passado como em outros lugares do mundo? |
Essas
premissas são, na realidade, os fatores de enfraquecimento do sistema
democrático e que pode levar a população ao desinteresse da participação
política. No Brasil vemos que nos últimos anos há uma grande polarização devido
a um discurso populista de corrupção que nos foi colocada por atores políticos
com interesses diversos, como é o caso da Operação Lava Jato, mas não o de
compromisso com a democracia e nem com o desejo da participação popular na vida
política. É importante salientar que a corrupção é um problema gravíssimo em
qualquer lugar e deve ser punida com o rigor da lei, sendo um dos fatores para
o enfraquecimento da democracia também. Governo, mercado financeiro, empresas e
nas relações pessoais. Quando a corrupção se torna algo comum, há um risco
enorme de confiabilidade em qualquer esfera citada acima. Mas, analisando Linz,
será que a corrupção como colocada nos discursos de populistas que afirmam ser
“a voz do povo”, que entram em guerra contra o que descrevem como uma elite
corrupta e conspiradora, tendem a utilizar a democracia para alcançar o
autoritarismo ou estão realmente lutando para o fortalecimento da democracia?
Para Linz, se um político se enquadra mesmo em apenas um desses critérios é
motivo de preocupação com o descumprimento democrático.
Se analisarmos
no Brasil a tabela de Juan Linz e a tabela de Levitsky e Ziblatt em um período
de dois anos, quanto desses preceitos o governo atual de Jair Bolsonaro e os
governos anteriores do Brasil se encaixaram ou se encaixam em um ou mais critérios?
Se há ao menos uma resposta positiva, estamos no caminho contrário de um
fortalecimento democrático. O que podemos fazer em relação a isso para
fortalecer o nosso sistema político? Essa resposta pode ser analisa com mais
calma e discutida em outros momentos, mas podemos dar uma indicação baseado em
alguns países onde isso já aconteceu. Proponho adaptar a análise de Levitsky e
Ziblatt e para mostrar o destino de alguns países onde houve, através do
sistema democrático, a formação de sistemas autoritários.
|
País |
Líder |
Data de início |
Captura de árbitros |
Remoção de
jogadores |
Mudança de regras |
Destino do regime |
|
Argentina |
Juan Perón |
Junho de 1946 |
Sim |
Não |
Não |
Autoritário |
|
Equador |
Rafael Correa |
Janeiro de 2007 |
Sim |
Sim |
Sim |
Moderadamente autoritário |
|
Hungria |
Viktor Orbán |
Maio de 2010 |
Limitado |
Não |
Não |
Moderadamente autoritário |
|
Rússia |
Vladmir Putin |
Maio de 2000 |
Não |
Sim |
Não |
Altamente autoritário |
|
Venezuela |
Hugo Chávez |
Fevereiro de 1999 |
Sim |
Sim |
Sim |
Autoritário |
Para analisar
a tabela acima é necessário compreender essas premissas como grades de proteção
de uma democracia, ou seja, instituições, pessoas e leis que devem ser
colocados como parte de um jogo que beneficie a população e não algo que deve
ser de posse ou de poder de um governo para usar a seu favor. Os árbitros são
Ministros, Juízes, serviços de inteligência, policiais, agências éticas e
tribunais; os jogadores são os críticos da mídia e outras pessoas que façam
oposição ao governo; mudança de regras são as mudanças nas leis com fins
autoritários e menos burocráticos de atingir seus objetivos.
No ano
passado, na contramão da democracia, veio a notícia que o Parlamento da Hungria
aprovou um projeto que dá plenos poderes por tempo indeterminado ao primeiro-ministro
Viktor Orbán. Em primeira votação, que eram necessários três quartos do
parlamento para a aprovação, o projeto não passou, mas uma nova votação onde
eram necessários dois terços dos votos o projeto foi aprovado. Desde sancionada
a lei, Viktor Orbán poderá alterar ou suspender quaisquer leis existentes no
país sem necessitar de aval do Parlamento. Com essa lei também, Orbán poderá
punir órgãos de imprensa que noticiarem notícias falsas com até 5 anos de
prisão. A principal questão é: Com tais poderes, qual órgão de imprensa vai se
arriscar a noticiar algo contra o governo de Órban?
Importante
analisar que essas duas premissas de mudança de lei e controle sobre a imprensa
que o primeiro-ministro Húngaro, que já é considerado por cientistas como
“moderadamente autoritário” propõe, o colocado no mesmo caminho da Venezuela de
Hugo Chávez. Um regime autoritário, porém, de extrema direita. Os
oposicionistas Húngaros, assim como os oposicionistas venezuelanos fizeram no
começo dos anos 2000 com Hugo Chávez, acusam o primeiro-ministro de dar um
“golpe de Estado” e levar o país para uma ditadura. O governo de Orbán que já é
alvo de investigações da União Europeia por diversas violações aos direitos
humanos devido a violação aos direitos de imigrantes e refugiados. Também por
atacar à imprensa e o poder Judiciário, sofre pressão dos países da União
Europeia para que a Hungria seja expulsa caso essa lei seja colocada em vigor.
Conclusão
É um exercício
de reflexão analisar a primeira e a segunda tabela e ver se o governo do seu
país está indo para o caminho democrático ou se está caminhando, através dos
meios democráticos, para o autoritarismo. É importante salientar que, como no
caso da Venezuela, Rússia e agora a Hungria, a democracia não entra em
decadência por instituições militares, como ocorreu no século XX em diversos
países, mas ocorrem dentro do jogo democrático, o que é muito perigoso, pois
esse autoritarismo não é mais de maneira abrupta, mas vai acontecendo
lentamente, até o Estado democrático definhar.
No Brasil, o
presidente Jair Bolsonaro tem feito a captura de árbitro, como utilizar a
Polícia Federal e agências de inteligência para uso do Governo Federal ou elas
são autônomas? Houve tentativa de eliminar jogadores, como o descredenciamento
ou censura de meios de comunicação ou de opositores ao seu governo? Em relação
às mudanças de regras do jogo, o presidente do Brasil tentou tirar o poder dos
governadores, mesmo o país sendo federativo? Houve tentativa de mudanças nas
leis para que enfraquecesse a atuação de grupos opositores ou discursos
deslegitimando o processo eleitoral do país sem provas?
Se a resposta para as perguntas acima teve ao menos um sim, o Brasil já se encaminha para uma ruptura com o sistema democrático, seguindo o mesmo caminho de Venezuela, Hungria, Rússia e outros países.
Nenhum comentário:
Postar um comentário